Esta é uma resenha sobre o livro Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Será mais bem compreendida se você já o leu antes, mas tentei escrevê-la de uma forma que isso não seja necessário, pois minha intenção é concluí-la traçando um paralelo entre a obra e a nossa sociedade.
Foi o primeiro livro que li do autor, mas eu ainda não li obra que tratasse com profundidade tantos temas interessantes e importantes ao mesmo tempo e ainda fosse divertida.
A obra retrata uma sociedade futurista em que o indivíduo nada mais é do que uma peça que compõe o todo. A subjetividade e individualidade não existem mais. Os valores já não são mais os mesmos, a verdade e a liberdade foram trocadas por estabilidade social, bem do coletivo e ausência de tudo que teria potencial para trazer infelicidade: guerras, doenças, ódio e paixão, envelhecimento, pesar da morte, etc.
Este é um livro teoricamente de ficção, que narra uma sociedade num futuro hipotético, muito distante. Mas é atualíssimo. Vários dos dilemas morais que o livro aborda já são uma realidade em nosso tempo.
O aspecto que achei mais interessante é a fuga de clichês e de parcialidade. Você, em certa parte do livro, é induzido a acreditar que O Selvagem, personagem que se rebela contra o sistema, é o herói do livro. Mas uma observação mais crítica nos permite concluir que ele é, ao mesmo tempo, herói e anti-herói.
Explico. A sociedade não é exatamente totalitária, no sentido de ser fruto de mera arbitrariedade de um louco que assumiu o poder. Os seus idealistas realmente acreditam que ela oferece o que há de melhor para o ser humano. O debate entre o protagonista (O Selvagem, rebelde) e o antagonista (Mustafá Mond, administrador do sistema) demonstra bem o que eu quero dizer. Para cada argumento do Selvagem, há um poderoso contra-argumento de Mustafá. Em sua essência, o debate mostra que a vida é feita de escolhas e cada escolha é uma renúncia. No final das contas, não é uma luta do bem contra o mal, mas de escolher entre coisas que parecem se equivaler: o que vale mais, uma sociedade livre, mas instável, com guerras e conflitos, ou a ausência de liberdade, a morte do livre arbítrio, da vontade, ou a paz, a saúde, a estabilidade, o prazer, a “felicidade” ? Aspas, pois o livro mostra que não é tão fácil assim definir o que é felicidade.
Embora o livro termine sem deixar uma posição fechada sobre o que seria melhor, nós, em nossa subjetividade, podemos analisar seu conteúdo e compararmos com a nossa realidade. Quando observamos exclusivamente a sociedade que o livro descreve, sem chegar a ler os argumentos de Mustafá, vemos um coletivo de idiotas úteis. Pessoas que não possuem vontade própria, que vivem para realimentar o sistema. Que se entorpecem de vícios para fugir da realidade. Ora, parece ou não a nossa sociedade dos dias de hoje ? Troque o soma (droga no livro utilizada para que as pessoas consigam superar todas as adversidades) pelo crack, pela novela, pela bebida, ou por qualquer outra coisa que te faça esquecer sua vida medíocre. Veja os discursos dos psicólogos, que dizem que a família tradicional não tem tanta importância, que eles conhecem mais do que os próprios pais a melhor forma de se educar os filhos. Observe o quanto o estado também cada vez mais dita como os nossos filhos serão educados. O quanto valorizamos estupidamente o trabalho, como se fosse um valor em si, não um meio para obtermos nosso sustento. O quanto as pessoas cada vez mais perdem a própria opinião e seguem aquilo que os meios de comunicação dizem (condicionam). Sim, o Admirável Mundo Novo já não é mais novo.
Como se não bastasse um livro com um conteúdo excelente, destaca-se também pela forma. Partes dos diálogos dos personagens é construída numa linguagem poética. O autor mistura a fala dos personagens com trechos da obra de Shakespeare e de demais autores clássicos, tudo organizado de uma forma que se encaixa perfeitamente na estória. É um artifício utilizado para lembrar ao leitor como os livros clássicos já abordaram as grandes questões da humanidade. Desta forma, os diálogos giram não só em torno das grandes questões políticas da sociedade como um todo, como sobre aspectos mais subjetivos, como a morte da verdadeira arte, da poesia com conteúdo, da beleza e, porque não, do amor. Demonstra a transição de uma sociedade romântica para uma sociedade extremamente racional e mecanizada. Tal qual vivemos hoje.
É melhor parar por aqui. Resenhar, no fundo, é abstrair. E abstrair significa priorizar umas coisas para eliminar outras, deixar de falar delas. Leiam. Seria, no mínimo, um pecado dar a entender que existem partes supérfluas no livro. Que Ford me perdoe.





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