Esta é a resenha de um livro que acabei de ler, O Senhor das Moscas. É surpreendentemente bom. Um romance psicológico que revela o homem tal como ele realmente é: um animal domesticado, mas, ainda assim, um animal.

Há uma clara influência em Lost, mas as tramas tomam caminhos diferentes. A estória gira em torno de um grupo de meninos que ficam sozinhos numa ilha, após um acidente de avião, durante uma guerra e precisam se virar sem adultos (figura da autoridade).

Crianças, que teoricamente não carregariam os males construídos na nossa sociedade. Uma oportunidade para se iniciar uma tabula rasa, uma sociedade criada a partir do zero, de acordo com o mito do Bom Selvagem, de Rousseau.

Não demora muito até que os meninos tenham a necessidade de se organizarem, para conquistarem seus objetivos. Surgem dois candidatos naturais a líder, Ralph, o persuasivo, orador, de iniciativa, e Jack, o destemido e mais forte do grupo. Ralph é eleito pelo grupo o líder, por se apossar de uma concha, símbolo que ao longo do livro é colocado como o direito ao poder.

Porém, Ralph carece de estratégia, de um raciocínio capaz de se antever a problemas e bolar soluções. Porquinho, um menino gordinho míope, é a voz da razão no grupo, o elemento que possui estas características que faltam a Ralph. Mas, pelo seu porte físico e inocência, é o “bullied” do grupo. Não possui voz ativa e suas opiniões só provocam risadas.

Juntos, Ralph, Jack e Porquinho se completam, mas não se entendem bem. Ao longo da estória, Jack se destaca, por ser aquele mais capaz de conquistar a admiração do grupo, através de seus feitos e por ser mais capaz de “protegê-los” do “bicho que ronda a ilha”. Assume, desta forma, a liderança definitiva dos demais. Qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência …

Porém, é uma liderança negativa, que corrompe a personalidade individual dos meninos, que passam a assumir a personalidade do grupo: selvagem, que só teme o mais forte, o líder do grupo.

O livro é repleto de simbolismos, dentre eles, um que é personificado e dá o nome à obra. A leitura não é das mais fáceis, pois o autor utiliza várias das passagens dos livros para fazer análises sobre ideologias, sistemas sociais, características comportamentais individuais e de grupo.

O mais interessante é como o autor ilustra exatamente aquilo que acredito, recebemos tanta educação, mas a educação sem considerável reflexão nada mais é do que uma fina película, facilmente rompida diante de situações extremas.

Todo mundo é educadinho, dá bom dia, vai à igreja, critica o próximo, que furou fila. Mas quando ocorreu o Katrina, por exemplo, vimos exemplos do que o homem civilizado é capaz , quando não é vigiado e a aparência de civilização é destruída. Inúmeros saques, estupros, pessoas matando umas às outras, mesmo quando inúmeras pessoas precisavam de ajuda. É por essas e outras que não acredito em anarquia, anarquistas são ingênuos, por depositarem uma fé completamente cega no ser humano.

Estimule a reflexão, torne as pessoas conscientes, contribua para uma sociedade melhor. Mas esteja preparado para usar a força, se preciso, lembre-se que a selva continua aqui, só está adormecida. Como diriam os romanos (em relação aos gregos), de que adiantam dois mil anos de arte se você não sabe se proteger ? Porquinho que o diga.

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