Algumas pessoas se questionam se não nos revestimos de uma suposta superioridade ao explorarmos a natureza para satisfazer nossas necessidades. É claro que sim e quem disser que não, estará sendo hipócrita. Nossa vida, a humana, é a mais importante, pelo simples fato de ser nossa. Assim como para o cão, a vida canina é mais importante e pro leão, a leonina.

Isto é instinto de sobrevivência, que inclui a necessidade de se alimentar. Somente aqueles que conseguem se alimentar de pedras, não dependem de remédios, de se vestirem, são os que realmente acreditam que não existe vida superior. O vegetariano, por exemplo, só come plantas. Acredita que a vida animal é superior à vegetal, então tenta defendê-la a todo custo.

Teríamos então que adotar um critério sobre como proceder, ou isso serviria de pretexto pra cometer atrocidades com as demais formas de vida pelo simples fato de nos considerarmos superiores. Eu adoto o meu, a garantia da minha sobrevivência prejudicando o mínimo possível as demais formas de vida, independente do reino a que pertençam. Então eu procuro não fazer mal a nenhum ser vivo, sejam plantas, animais ou até as formas de vida aparentemente mais insignificantes se não estiverem representando ameaça, ou não garantirem de alguma forma minha sobrevivência.

Portanto, penso que quem defende o direito dos cães e não defende o de um besouro, o do capim, da planta carnívora e o do rato, simplesmente adota um critério diferente. O de proteger os seus favoritos e que se dane o resto. Não é exatamente inferior, mas também não é superior a ninguém, como gostam de parecer.

Alguém poderia perguntar: na sua opinião, Marcos, a vida animal então é um direito adquirido pelo homem dada a sua supremacia, que pode se dispor de acordo com suas necessidades?

Não. Todos possuem direitos, que deveriam ser respeitados na medida do possível. Só que quando o direito mais fundamental de ambos, o da vida, conflita um com o outro, algum tem que prevalecer. O animal fará de tudo para prevalecer o dele e nós, o nosso. Nós não somos piores nem melhores que nenhuma forma de vida, só somos mais capazes de garantir nossos direitos do que as demais.

Outro argumento comum dos vegans é que o animal sente dor e devemos sempre poupa-lo da dor. Plantas não sentiriam dor, então devemos nos alimentar somente de plantas.

Primeiro (contra-argumento forte), porque se for assim, teríamos direito a fazer qualquer coisa, basta anestesiar, ou usar métodos indolores. Poderia matar animais usando gás carbônico, dizem que a morte é indolor. Ou então poderia abusar à vontade de seres com deficiência no sistema nervoso.

Segundo (contra-argumento fraco, pelo menos pra mim), porque nada garante que plantas não sintam de outra forma (divagando aqui para coisas além da ciência). Se partirmos da premissa de que seres vivos tem alma, ninguém continua sendo melhor do que ninguém.

Uma dieta bem equilibrada necessariamente tem carne, isso qualquer nutricionista sério pode te garantir. Não somos onívoros à toa. A creatina, por exemplo, só é encontrada em alimentos de origem animal. Não é essencial, mas é importante para a construção muscular.

A quantidade necessária de vegetais para suprir a necessidade de proteínas diárias é enorme, um atleta por exemplo precisa de 2g ou mais de proteínas por quilo corporal. A menos que ele resolva se entupir de soja pro resto da vida, nunca suprirá esta necessidade. Até mesmo para uma pessoa comum é complicado dispor de uma dieta composta apenas por vegetais. Além do problema das proteínas vegetais serem, em geral, de baixo valor biológico (número de aminoácidos essenciais presentes) e em menores quantidades, há a questão do ferro. A carne é composta do ferro tipo heme e não-heme, enquanto os vegetais possuem apenas o não-heme, de absorção inferior para o organismo. Por isso não é incomum ver vegans com anemia.

Como se não bastasse o prejuízo causado na alimentação, o mundo não tem estrutura para que toda a população resolva ser vegetariana de uma hora para outra, de acordo com especialistas em agricultura e pecuária. Temos então contra-argumentos tanto em favor do coletivo, quanto do indivíduo. E a coisa não pára por aí.

Eu como carne tanto por prazer, quanto pelo equilíbrio da minha dieta. Não é qualquer um que se adapta bem a uma dieta sem absolutamente nada que venha de origem animal e não é incomum ver pessoas com deficiências nutritivas por conta disso.

O meu argumento central ainda é que toda espécie de vida tem igualmente direitos, desde que não entre em conflito com o meu direito fundamental e o dos meus iguais, o da vida. Não podemos escapar do fato de que viver em si é um ato cruel, pois, pra permanecer vivo, você precisa matar o que te ameaça ou o que te alimenta e uma morte é uma morte, seja ela de um cão ou de uma formiga. O nosso senso de moralidade não deve agir no sentido de negar este óbvio, mas de diminuir esta necessidade de crueldade o quanto for possível.

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